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Cultura e Lazer

 

08/09/2009

 

Atriz estréia na direção com filme implacável

 

Fonte: Folha de São Paulo

 

Documentário de Sandrine Bonnaire mostra cotidiano da
sua irmã autista


INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA


Que ninguém se engane com a aparência delicada ou a imagem
glamourosa de Sandrine Bonnaire, atriz bem conhecida e
diretora deste filme. "O Nome Dela É Sabine" é um documentário
implacável em torno de Sabine, sua irmã autista e seu destino.

Autista, define-se em determinado momento, é alguém com
dificuldade intransponível de convivência. Algo que se
manifesta nos tempos de colégio, agrava-se na adolescência e
adquire proporções catastróficas depois que Sabine, por
circunstâncias familiares, acaba internada durante cinco anos
numa instituição psiquiátrica.

A circunstância está longe de ser inédita: o mal psíquico,
recalque persistente, leva ao desaparecimento do paciente (isto
é, ele deixa de ser visto) e, com isso, desdobra-se, foge ao
controle mesmo dos parentes.

Dois momentos
O filme de Sandrine é composto de dois momentos. O primeiro diz
respeito à juventude de Sabine, documentada em vários filmes
familiares. Vê-se ali uma garota em cujo olhar estampa-se o
sofrimento, sem dúvida, mas também uma enorme vivacidade.

A segunda Sabine é interna de uma instituição especializada -
não o hospital psiquiátrico mas uma clínica aberta, entre
outros, graças à "notoriedade" (o termo é dela) da autora do
filme. Sabine é outra. Gorda, apática, fatigada, insegura.

Ela está há um bom tempo nessa clínica e, ao que se diz,
melhorou muito em relação à sua chegada quando saiu da
instituição psiquiátrica. Entre esses dois momentos, existe a
narrativa em off de Sandrine, aproximando os dois tempos.

"O Nome Dela É Sabine" configura-se assim como uma mistura
entre as dores experimentadas por Sabine (e, depreende-se, por
outros internos da instituição) e as vivenciadas por Sandrine,
que atribui à psiquiatria não os males mas a substancial
deterioração de suas faculdades.

Certo ou errado o julgamento, o fato é que o filme de Sandrine
nos introduz em um universo de terror que, embora não deixe de
evocar as grandes monstruosidades científicas do cinema
clássico (em particular o dos anos 1930), traz para perto do
espectador a terrível dimensão do presente, do vivido, do
concreto ("Então ela assimilou bem a lição de Pialat; ela
mostra tudo", comenta o crítico Luis Carlos Oliveira Júnior).

"O Nome Dela É Sabine" não é propriamente um "filme de
diversão". Quem está atrás disso é melhor fazer meia-volta.

É um documentário de enorme gravidade, tão mais duro quanto
Sandrine recusa-se a pôr seu filme a serviço do
sentimentalismo. Ao contrário, é sua crua frieza que nos leva a
compreender o sofrimento atroz de Sabine e a partilhar a dor de
sua irmã.

   
 
 
     
     
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