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Entrevistas

 

08/09/2009

 

Entrevista: Rodrigo Mendes

 

Fonte: Redação

 

Este mês, o site Diversidade Global entrevista Rodrigo
Mendes
, fundador do Instituto Rodrigo Mendes, uma
organização sem fins lucrativos comprometida com a construção
de uma sociedade inclusiva por meio da arte

----------

Entrevista

----------

DG (Diversidade Global) – Rodrigo há quanto tempo
trabalha com a causa de pessoas com deficiência e o que te
motivou?

Rodrigo – Minha história com esse universo começou com
um acidente que tive aos 18 anos, fui assaltado, levei um tiro
no pescoço e passei a conviver com a tetraplegia. Esse assunto
passou a fazer parte do meu dia a dia e fui conhecer melhor
essa área, que não fazia parte do meu cotidiano.
Comecei o trabalho com o Instituto, dois anos depois do
acidente já estava há algum tempo produzindo como pintor, e
achei que naquela fase de habilitação, eu ainda pretendia
voltar minha formação pessoal na faculdade, que poderia dar
inicio há uma iniciativa com artes visuais, porque para mim
teve um significado importante naquele momento. Foi uma
oportunidade de grande valor.

DG – Você é o fundador do Instituto Rodrigo Mendes,
poderia nos explicar as atividades da organização?

Rodrigo – O Instituto trabalha a partir de 4 programas 3
deles no campo da educação 1 deles no campo da geração de
renda. Os 3 iniciais, compõe um Programa de curso de artes
visuais que chamamos de Singular, mantém cursos para públicos
bastante heterogêneos, com grande objetivo de contribuir para
autonomia das pessoas, tendo em vista que o curso favorece a
aplicação de repertório processos criativos e de alguma maneira
complementa a educação formal.

DG – Em sua opinião, qual o papel das empresas na
promoção da Diversidade?

Rodrigo - Todos os assuntos que permeiam a temática dos
Direitos Humanos devem ser entendidos como importantes para
todas as esferas da sociedade. Pensando no setor privado, acho
que existe um grande potencial de contribuição, tendo em vista
que grande parte do mercado de trabalho formal é criado e
mantido pelo setor privado.
A partir do momento em que as empresas afetam o mercado é
uma parcela fundamental de processos de inclusão do setor
privado, desempenham um papel essencial quando a gente pensa
em garantir igualdade de oportunidade para qualquer segmento
da sociedade.

DG – Você diria que as cotas para inserção das pessoas
com deficiência nas empresas têm auxiliado a diminuir
desigualdades? O que mais precisa ser feito?

Rodrigo – Eu acho, tendo em vista a complexidade desse
tema relacionado a cotas e ações afirmativas que é prudente não
assumir posições categóricas.

Dependo do contexto ou da forma como é conduzido, a história
tem mostrado que os resultados podem assumir diferentes
configurações, no caso do Brasil, é inegável o amadurecimento
que o assunto tem conquistado desde que as empresas
passaram a ser fiscalizadas e se mobilizaram para atender essa
medida. No entanto, acho importante termos sempre um olhar
crítico e não nos conformarmos com a lei tal como ela existe
atualmente. Além de poder ser aprimorada a partir dos
resultados que temos observado, ela deve ser adequada a cada
momento histórico tendo como pressuposto a expectativa de que
um dia não precisemos de nenhum tipo de cota.

DG – Quando falamos de inclusão de pessoas com
deficiência em empresas, quase sempre ouvimos que elas não são
contratadas por falta de mão de obra qualificada. Você acha que
essa afirmação é verdadeira?

Rodrigo – Acho que em parte, existe de fato grande parte
do segmento de pessoas com deficiência que não tiveram acesso
a educação formal e que por isso apresentem lacunas quanto ao
que o mercado exige em situações convencionais. Mesmo diante
dessa realidade, isso não pode ser uma justificativa simplista
porque as empresas têm a alternativa de investirem em formação
ou outras estratégias que possam mudar esse contexto.

DG – Pensando na importância da educação para inserção
no mercado de trabalho, assim como outros aspectos da vida, no
Brasil as escolas públicas têm recebido alunos especiais, você
acha que o sistema de ensino brasileiro já está preparado para
lidar com crianças e jovens com deficiência?

Rodrigo – O sistema não está preparado e talvez ele
nunca esteja totalmente preparado, porque pensar em uma
educação inclusiva é pensar numa concepção de ensino que
atenda todo e qualquer tipo de ser humano. Isso envolve em se
pensar em um universo continuo de aprendizagem e transformação.
No entanto, para que esse processo tenha inicio, a mudança no
setor no setor público de ensino é inadiável, ou seja, o
despreparo não deve ser justificava para que não comecemos
a construção de um ambiente escolar voltado ao acolhimento de
qualquer criança.
A própria experiência indicará caminhos possíveis para
essa complexa transformação.

DG –Atualmente muito se fala em construções de
acessibilidade universal. Você acha que estamos muito longe do
dia em que as pessoas com deficiência terão acesso a todos os
lugares? Quais são os maiores entraves encontrados?

Rodrigo – Acho que não existe uma resposta especifica
que de conta para essa pergunta, por um lado existe
desconhecimento, uma fiscalização ineficiente e, talvez, um
certo grau de descaso por parte quem é responsável por tomar
decisões referentes a arquitetura e engenharia do setor da
construção civil, mas por outro lado a gente também está
falando de um processo continuo de aprendizagem e aprimoramento.
Eu acho que a gente não vai ter um dado momento em que tudo
estará absolutamente acessível, esse é um processo que
depende de com que ser humano você está falando, por isso é
difícil pensar em uma solução que resolva completamente todos
os casos. Aí tem a importância do lado humano nesse processo,
muitas vezes mesmo que o edifício seja considerado avançado em
relação à acessibilidade é possível que os funcionários desse
edifício precisem de uma certa flexibilidade e iniciativa para
lidar com casos muito específicos em termos de necessidade
arquitetônica.

DG – O que mais poderia ser feito pelo governo para
conseguirmos avanços e mais igualdade para as pessoas com
deficiência?

Rodrigo – Eu gostaria de reforçar a importância de
canalizar atenção em investimento da estrutura da educação
formal de modo a garantir o acesso de qualquer criança à
escola. Dificilmente a gente vai ter uma mudança estrutural no
contexto atual de exclusão se não priorizarmos a educação.

DG – Você considera que os diferentes eixos de
Diversidade (orientação sexual, pessoas com deficiência,
gênero, etnia, idade, religião) estão relacionados? De que
forma?

Rodrigo – Eu tenho buscado sempre conduzir as discussões
sobre exclusão a partir de um conceito abrangente de
diversidade, em certos casos pode até ser arriscado você ficar
restrito a um único atributo quando se pensa alternativas para
uma transformação tendo em vista uma sociedade mais
democrática. Por outro lado, às vezes vale o exercício de você
se aprofundar em um único recorte para poder eventualmente
buscar soluções que em certos casos são mesmo especificas.
Então eu recomendo sempre esse movimento entre o amplo e o
especifico de forma a tentar evitar simplificações que sejam
insuficientes.


Para mais informações:

E-mail:
rodrigo@institutorodrigomendes.org.br


Ou acesse o site:

www.institutorodrigomendes.org.br

   
 
 
     
     
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