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14/12/2009

 

Negociando limites

 

Fonte: Revista Vida Simples

 

Lidia Muniz é negra. Negra e loira, aliás, como a cantora norte-
americana Beyoncé. Ao viajar no começo do ano para um
congresso de terapeutas na Califórnia, o estado mais
politicamente correto dos Estados Unidos, ela notou que muitas
sorriam ao passar por ela, como querendo dizer: “Eu a aceito do
jeito que você é.

Por mais diferente que você possa parecer do que eu sou, ou do
que eu gosto, está tudo certo”. Depois de 15 dias, esse
comportamento supostamente gentil começou a lhe dar nos nervos.

“Sei que sou diferente, fora do padrão, e que seria normal uma
pessoa olhar para mim surpresa, até com certa hostilidade.

Aceito esse risco. Mas era terrível suportar essa tolerância
infinitamente condescendente que, no fundo, parecia
sussurrar ‘olha, minha filha, tudo bem, você é maluca, mas eu,
que sou bem legal e tolerante, vou aceitar sua excentricidade,
desde que ela não invada os meus limites e você fique na sua,
ok?’” Enfim, provavelmente um conveniente verniz social, tão
raso que daria para raspar com a unha.

Difícil, não? Até a tolerância empostada pode ser um ato
inconsciente de arrogância. Mesmo quando eu, você e talvez o
pessoal da Califórnia achamos que estamos sendo tolerantes,
podemos esconder debaixo do pano um baita complexo de
superioridade e uma indisfarçável prepotência. Ou então, pior
ainda, o eterno desejo de sermos sempre fofos, doces e
certinhos como o ursinho Puff.

Por isso é que é bom a gente refletir mais profundamente sobre
os limites da tolerância, quando ela é real e desejável, ou
exagerada e falsa. Ou quando somos tolerantes com os outros e
intolerantes conosco, até o ponto de a tolerância virar
autoabuso. Ou ainda quando a intolerância fecha nossos olhares
e atitudes e nos torna rígidos e inflexíveis. Essa é uma
questão cada vez mais presente em nossas vidas. Não dá mais
para passar por cima.

Tolerância é uma palavra ingrata na maioria das línguas
latinas. Ela traz em seu bojo a ideia de que é preciso
aguentar, suportar, enfim, tolerar alguma coisa porque não se
tem outra saída. E, já que não tem jeito, já que não dá mesmo,
então engolimos o sapo. Toleramos. O verbo, na sua negativa, é
igualmente poderoso: “não tolero aquele fulano”, “não tolero
que mexam nas minhas coisas”. Ele nos traz uma sensação de
irritação, impaciência e até mesmo raiva com outra pessoa ou
situação. A ideia é que um limite foi invadido, ultrapassado, e
que fiquei louco da vida com isso. Então não tolero.

“Casa de tolerância”, ou bordel, num outro exemplo, é o lugar
onde é possível ultrapassar todos os limites, onde tudo é
tolerado, inclusive o sofrimento e a humilhação do outro. Vamos
combinar, portanto, que, por causa dessa carga emocional,
tolerância não é exatamente a palavra adequada para nos dar
uma noção de amplidão, de abertura. Algo leve, prazeroso,
acolhedor.

Talvez a melhor palavra para dar essa ideia de expansão de
limites pessoais fosse abrangência. Eu abranjo, tu abranges,
ele abrange. Abro os braços e o incluo como parte de mim mesmo.
A primorosa expressão usada para designar o outro pelo povo
kakinawá, da Amazônia, por exemplo, é txai. Ela significa
amigo, companheiro, mas também “a outra metade de mim”. Txai é
aquele que vai me completar e que, juntos, formaremos um só
ser. Além de fazer parte de uma música de Milton Nascimento e
Maurício Bastos, a palavra txai é a tolerância exercitada em
seu melhor sentido: com o sentimento de que somos todos
interdependentes. Sem salto alto, sem arrogância, reconhecendo
no outro uma contraparte de mim mesmo

Diferente é a mãe

Reinaldo Bulgarelli , autor de Diversos Somos Todos, livro que
trata exclusivamente do tema diversidade, escolheu o nome txai
para sua pequena empresa de consultoria. Reinaldo trabalhou
com crianças indígenas na Amazônia em projetos da Unicef , com
o educador pernambucano Paulo Freire junto aos meninos de rua,
enfim, passou a maioria dos seus 47 anos envolvido com inclusão
social e educação. Mas é interessante conhecer onde e como
germinou essa incrível aptidão. Foi em 1978, nas reuniões do
movimento de juventude cristã que tinham lugar na igreja Nossa
Senhora do Rosário, no largo Paissandu, no centro de São Paulo.
Na época, a paróquia congregava uma grande comunidade
negra. “Tinha 16 anos e era o único jovem branco por ali”,
diz. “Mais do que aprender o que era ser negro, me
conscientizei do que era ser branco: os privilégios e
oportunidades que tinha, a diferença de tratamento que recebia
da sociedade. Antes disso, não tinha a menor noção dessa
diferença.”

O abismo que separava as duas realidades foi lição suficiente.
Reinaldo resolveu dedicar o resto da vida para lutar pela
tolerância à diversidade. “A gente sempre pensa que o diferente
é o outro, que tenho de tolerar aquele que é diferente de mim.
Esse é um grande engano. Cada um de nós é diferente de alguma
maneira. A diferença que está no outro também está em nós, se
mudamos o ponto de vista. Não há como nos excluir dessa
condição de diversidade, que é própria do ser humano”, afirma
Reinaldo.

Hoje, além de coordenador de cursos na Fundação Getúlio Vargas
na área de responsabilidade social, ele trabalha com inclusão
em empresas. Isto é, depois de sua passagem por elas, aumenta
significativamente o número de mulheres em cargos de liderança,
abrem-se novos setores que incluem deficientes, propõem-se
metas mais efetivas de responsabilidade social. Otimista,
Bulgarelli acha que no Brasil nos movemos em uma cultura que,
no geral, é flexível e tolerante, para o bem e para o
mal. “Vivemos numa sociedade que tem o mito da democracia
racial, por exemplo. Se, por um lado, esse mito impede que
enfrentemos de uma forma mais realista o que realmente
acontece, ele também nos acena com a ideia de que é possível
caminhar nessa direção. Há algumas sociedades mais rígidas e
conservadoras em que esse tipo de pensamento sequer
tem lugar”, diz

Mas também pode ocorrer o contrário: o excesso de tolerância
que denuncia passividade, lassidão, a falta de resistência
contra o abuso. É o que vamos ver a seguir.

A ira santa

O excesso de tolerância pode gerar o abuso? João Pereira
Coutinho, jornalista português que assina uma coluna no jornal
Folha de S.Paulo sobre temas políticos e sociais, tem certeza
que sim: “O excesso de tolerância pode levar ao pecado capital:
tolerar o intolerante, ou seja, aquele que destrói nossa
própria tolerância”.

Com palavras precisas, Coutinho delineia questões que
sensibilizaram muitos filósofos: até onde é possível tolerar?
Qual o princípio que deve nortear minha tolerância? “O
princípio do pluralismo, isto é, a ideia de que existem valores
e objetivos de vida múltiplos e nem sempre compatíveis”, diz
Coutinho. Mas ele adverte: “Porém esse pluralismo não deve
ameaçar os valores que eu considero centrais para uma
existência digna. Ou seja: posso tolerar que os outros prefiram
viver suas vidas de determinadas formas, desde que isso não
ponha em causa minha vida e a vida dos outros”.

É o que o filósofo austríaco Karl Popper chama de “o paradoxo
da tolerância”: não se pode tolerar o intolerável. “Se formos
de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, e
se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos,
os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância”,
sentencia ele numa lógica irretorquível.

E o que é o intolerável? “É aquilo que nos causa dor,
sofrimento, prejuízo, indignação, humilhação, e que geralmente
é causado por um abuso indiscriminado de poder”, diz a
psicoterapeuta Denise Ramos, do Laboratório Formativo do Ser,
ligado à linha do psicólogo Stanley Kelleman. Esse é o limite:
o que pode ser traduzido por “maus tratos” não deve ser
tolerado. E há várias formas de reagir diante daquilo que não
conseguimos tolerar. A mais comum é a raiva. “Ela é um alarme
que nos acorda para um limite que foi ultrapassado, que nos
desperta para uma situação que consideramos abusiva.” Mas nem
sempre a raiva precisa, necessariamente, ser direcionada contra
quem ultrapassou limite.“Às vezes isso acontece, numa reação
imediata e legítima contra o abuso. Mas, no mundo adulto, a
energia da raiva também pode ser usada como uma mola
propulsora para mudar a si próprio e transformar a
circunstância abusiva”, diz Denise.

Porém, mais um cuidado a tomar nesse terreno escorregadio. “Se
não se deve tolerar tudo, pois seria destinar a tolerância à
sua perda, também não se poderia renunciar a toda e qualquer
tolerância para com aqueles que não a respeitam”, escreveu o
filósofo francês André Comte- Sponville em O Tratado das
Pequenas Virtudes. Isto é, não se pode ser justo só com os
justos, generoso apenas com os generosos, misericordioso com os
misericordiosos. Porque isso não é nem justo nem generoso nem
misericordioso. “Tampouco é tolerante aquele que só o é com os
tolerantes. Se a tolerância é uma virtude, como acredito e como
geralmente se aceita, ela vale por si mesma, inclusive para com
os que não a praticam”, afirma. A tolerância, portanto, não é
um objeto de troca num mercado, ou espelho que reflete apenas
quem a pratica. Tolerância é abrangência. Temos de nos tornar
maiores do que somos para poder praticá-la.

Percepção errônea

Quanto mais nítida a noção de separatividade que tenho de
alguém, menos eu sou capaz de ser tolerante com essa pessoa.
Pois, afinal, eu sou uma, ela é outra. Para os budistas,
enxergar as pessoas e coisas separadas umas das outras é como
olhar para um tapete e ver apenas os fios individualmente, sem
se dar conta de seu entrelaçamento. “Podemos dizer que a teoria
da interdependência, da interconectividade entre os seres, é
uma compreensão profunda da realidade. Ter esse ponto de visita
reduz a estreiteza mental. Com a mente estreita é mais provável
desenvolver apego, aversão”, diz o Dalai-Lama no livro A
Sabedoria do Perdão, um saboroso relato sobre o cotidiano do
líder tibetano feito por seu amigo, o erudito e bem-humorado
professor Victor Chan.

O apego ao que achamos que está certo e a aversão por quem
não concorda conosco, ou seja, a estreiteza mental, é a base da
intolerância. Por isso é que o filósofo Comte-Sponville afirma
que é preciso certa humildade para exercer a abrangência:
sabemos que nossas crenças e valores são relativos, subjetivos,
parciais. O que acreditamos ser verdade não é uma verdade
absoluta, que serve em toda e qualquer condição, e para todas
as pessoas. Por isso não podemos impô- la. Achar que o outro
não pode pensar diferente é o retrato acabado da intolerância,
do totalitarismo e do fundamentalismo. Também é por isso que a
intolerância está sempre associada à arrogância e à
prepotência. É melhor dar uma paradinha, quando achamos que
sabemos o que é melhor para o outro. Pois ele tem o direito de
não concordar.

Teoria e prática

Gandhi foi absolutamente intransigente e firme em sua posição
contra o domínio britânico na Índia. Porém, em vez de lutar
abertamente, com ódio no coração e derramamento de sangue,
preferiu exercitar a resistência não-violenta, baseada na
mobilização social e na pressão política. Além de hábil e
inteligente, ele tinha abrangência, isto é, uma clara visão de
estadista. Entendeu que a resistência pacífica pode ser tão
ativa e eficaz quanto uma revolução.

Um presidente do Brasil, Fernando Collor, foi deposto a partir
da mobilização pacífica ensinada por Gandhi: os estudantes
secundaristas espernearam, bateram o pé, e a sociedade voltou a
atenção para eles. Ou seja, a intolerância pode ser combatida
com firmeza de posições, manifestações de repúdio e uma pronta
reação. E certamente essa não é a posição fofinha do ursinho
Puff. É muito importante entender que tolerar não quer dizer
ser passivo, indiferente, omisso. “Tolerar Hitler era ser seu
cúmplice, pelo menos por omissão, por abandono, e essa
tolerância já era colaboração”, acrescenta Comte-Sponville.

“A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência”,
afirma claramente em seu primeiro parágrafo a famosa Declaração
de Princípios sobre a Tolerância promulgada pela Unesco. É bom
a gente não se confundir.

Essas grandes questões também podem ser vividas no dia a dia.
Uma das pessoas que mais colaboraram para o estímulo à
tolerância no Brasil é a professora Lia Diskin, uma das
criadoras da Associação Palas Athena, um centro de referência
(sediado em São Paulo) com relação ao estudo desses temas. Os
maiores eventos relacionados à cultura de paz dos últimos 30
anos no país tiveram sua participação direta ou presença. Mas
nada disso teria valor se ela não aplicasse esses conceitos em
seu dia a dia. E aqui gostaria de dar meu testemunho pessoal.
Com tolerância, Lia Diskin me recebeu para
entrevistasrelâmpago, sabendo de meus prazos estreitos (uma
realidade diária no jornalismo) e urgência, mesmo tendo sua
mesa repleta de inúmeras questões pendentes. Pessoa
ocupadíssima, Lia Diskin nunca deixou de responder meus e-
mails, por exemplo, sobre o sentido mais profundo do meu nome
budista. Não raro entrei em sua sala sorrateiramente a fim de
roubar seu tempo para esclarecer dúvidas pessoais com relação
ao cristianismo e ao budismo ou para comentar a fala mais
profunda de um entrevistado recente. Mesmo quando foi firme – e
quem trabalha com ela sabe o quanto Lia Diskin pode ser severa –
, nunca deixou de mandar seu cálido abraço na última linha do e-
mail. “Um grande amor pela humanidade, e sua consequente
tolerância e compaixão por todos os seres, é capaz de mover
cada um dos pequenos atos de uma pessoa no seu dia a dia. É a
união final entre a teoria e a prática”, afirma a
psicoterapeuta Denise Ramos. Se isso foi possível para Lia
Diskin, que se crê tão falha, humana e cheia de defeitos, isso
significa que a porta está aberta para cada um de nós.

   
 
 
     
     
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