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Marcelo Lomelino, formado em Direito pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP – 1982. Atuou em
diversas empresas como no escritório Demarest e Almeida, no
Sesc/Senac, Grupo Ultra, Magneti Marelli/Fiat, S/A
IndústriasVotorantim, PepsiCo. Fui diretor geral da Worthington
Cylinders e sócio fundador da MLC Consultoria. Atualmente,
ocupa na Alcoa Alumínio o cargo de Gerente de Relações do
Trabalho e Ambiente do Trabalho para as operações do Brasil e
do Caribe. Responsável pelos processos de Relações do Trabalho,
Relações Sindicais, Diversidade, Clima Organizacional e
Qualidade de Vida. Na esfera pública foi Secretário de
Parcerias do Governo Municipal de Sorocaba. Como consultor
atuou na área de planejamento estratégico, desenvolvimento de
lideranças e relações do trabalho, atendendo grandes empresas.
É Professor convidado do Curso de Responsabilidade Social e
Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas.
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Entrevista
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Diversidade Global – Marcelo, o que a Alcoa entende como
Valorização da Diversidade?
Marcelo: Respeito às Pessoas: “Trabalhamos em um
ambiente que promove a inclusão e aceita as mudanças, novas
idéias, respeito pelo indivíduo e igual oportunidade de sucesso
para todos.” Este é um dos nossos Valores, portanto nossa
política da Diversidade tem sido trabalhar nos fundamentos do
tema junto à sua liderança, a fim de que possamos, de fato,
promover a tal inclusão. Quando ela se efetiva, na prática,
concretiza-se um diferencial estratégico, frente às demais
empresas de mercado. Dentre vários benefícios, posso citar a
garantia de ter em seus quadros a diversidade de representação
presente em nossa sociedade até a inovação e criatividade na
gestão dos processos empresariais.
DG: – Quais são os segmentos nos quais a Alcoa atua e o
que motivou a escolha?
Marcelo: – No Brasil, resumidamente, a Alcoa produz
alumínio Primário (Poços de Caldas/MG e São Luís/MA), Extrudado
(Santo André/SP, Itapissuma/PE, Tubarão/SC e Sorocaba/SP) e
Laminado (Itapissuma/PE), explora uma minha de bauxita no
Oeste do Estado do Pará, em Juruti, afora participações em
consórcios e usinas hidrelétricas. A operação no Brasil também
é responsável pela gestão dos negócios de alumínio na Jamaica e
Suriname, o que amplia o leque do olhar, dos valores e da
cultura da diversidade e inclusão.
DG: – Sabemos que o setor de Alumínio no Brasil é
historicamente composto por profissionais do sexo masculino.
Como as ações de inclusão de mulheres têm sido trabalhadas?
Marcelo: – Hoje, temos cerca de 13% do nosso nível de
alta liderança composto por mulheres, mas a boa nova é que já
conseguimos nestes últimos dois anos com que o tema da inclusão
da mulher fosse assimilado, entendido e praticado pela
população masculina, predominante nos postos de comando. Nos
níveis mais baixos, celebramos o fato de termos cerca de 23% de
mulheres sobre o total daquela população. Enfim, sabemos que a
jornada é longa, mas 16% do nosso efetivo é composto por
mulheres, uma realidade a ser celebrada. Ultrapassada a etapa
de conscientização agora começamos a nos dedicar a projetos
específicos de inclusão, notadamente, os de “chão de fábrica”,
onde apenas o desejo de contratar mulheres não se mostra
suficiente. É preciso prover condições de infra-estrutura, como
por exemplo, banheiros, análise de postos de trabalho, etc. É
comum assistir o debate sobre a inclusão da mulher em qualquer
Unidade de Negócio, o principal alicerce que fundamentará os
próximos avanços.
DG: – Ao longo do trabalho de valorização da diversidade
que tem sido realizado pelo Alcoa ao longo dos últimos 2 anos,
quais os principais entraves que foram encontrados?
Marcelo: – A desinformação, o preconceito e não vamos
aqui responsabilizar as lideranças da Companhia. A própria
estrutura de Recursos Humanos precisa aprender sobre o tema,
afinal, somos atores de uma sociedade que investiu muito pouco
na educação para a diversidade. Não sabíamos, por exemplo, que
as diferenças não são ocultadas, mas evidenciadas, pois são
elas que promovem a diversidade em termos práticos. Por isso,
cada oportunidade que se apresenta, investimos algum tempo em
informação e desenvolvimento, gerando conhecimento sobre a
diversidade e multiplicando os agentes desta mudança.
DG: – O investimento em ações de Diversidade traz
resultados para os negócios de uma empresa? A Alcoa gerou
produtos e serviços com este foco? Quais?
Marcelo: – As ações de Diversidade, com certeza, gerando
benefícios concretos à organização. Um exemplo: a Divisão de
Extrudados tem vivido uma forte reorganização do negócio e
estratégia comercial e tem apresentado resultados altamente
expressivos, apesar dos recentes efeitos da crise econômica
mundial. Por lá a inclusão dos PCD´s já não é mais um tabu, ao
contrário, os limites da quota legal são excedidos. Portanto,
esta história de sucesso só foi possível, graças a composição
de uma equipe de trabalho diversa.
DG: – Em sua opinião, até onde vão as obrigações e
limites de atuação da empresa em relação à valorização da
Diversidade?
Marcelo: – Prefiro abordar o tema sem os parâmetros
“obrigações e limites”, mas a partir do compromisso
de Sustentabilidade, firmado pela Alcoa. Ser sustentável é
garantir que a própria organização reproduza a diversidade
presente em nossa sociedade – cultura, valores, práticas – na
constituição de seus times de trabalho. A diferença de
opiniões, de perspectivas, de idade, de gênero, de raça, enfim,
é que pode garantir a prática da sustentabilidade. A
multiplicidade de representações, seja elas quais forem,
precisa estar presente em nossa organização, senão a atuação
sustentável passará a ser apenas um sonho.
DG: – Para empresas que estão iniciando sua atuação em
Diversidade quais seriam as suas sugestões do que deve ou não
ser feito? Existe alguma dica que poderia ser compartilhada?
Marcelo: – Foco na sensibilização da alta liderança. Não
adianta prescrever receitas, pois cada porta tem um segredo,
uma chave e aí reside o potencial de acesso. Você, na sua
empresa, tem esta chave e saberá como utilizá-la na definição
de uma estratégia de abordagem, do “como” sensibilizar.
Recomendo que se esgotem todos os esforços no processo de
compartilhamento de informações e conteúdos sobre Diversidade.
Poucos projetos, a fim de garantir foco e repetibilidade na
execução dos processos. Ter um bom patrocinador, por exemplo o
próprio Presidente da empresa, faz uma enorme diferença. Para o
Franklin Feder, Presidente da Alcoa, a questão de quotas
legais, por exemplo, não deve fazer parte da pauta de
Diversidade, temos que ir bem mais além do que isso. E ele saí
defendendo o tema de peito aberto. E não há forma melhor de
sensibilizar uma população sobre um determinado tema, do que o
próprio exemplo dado por determinadas lideranças, especialmente
aquelas formadoras de opinião. Quem defende e vende a
Diversidade tem que dar o exemplo de como, em suas interações
diárias, este tema é tratado e praticado. Quem não tem
tolerância e disposição de escutar o outro não pode, por
exemplo, não pode depois falar sobre diversidade.
DG: – As ações de inclusão e diversidade que têm sido
feitas pelas empresas brasileiras são suficientes para
contribuir na melhoria da realidade de preconceitos que temos
hoje no Brasil? O que mais poderia ser feito?
Marcelo: – Não são suficientes ainda, mas diria que os
horizontes são promissores. Mesmo durante a crise econômica
encontramos espaço para discutir nossos projetos de inclusão, o
que indica a maturidade do tema e sua importância para a
empresa. A discussão sobre os preconceitos precisa “sair do
armário” e acredito que diversos atores podem ajudar no
processo de esclarecimento do que, de fato, é um preconceito e
como desvendá-lo e tratá-lo. A proliferação dos fóruns
empresariais, as comunidades virtuais, a participação de
expertos sobre diversidade, as consultorias, as ONG´s, as
representações do próprio Governo (em todos os níveis), as
instituições e as próprias empresas precisam investir tempo e
dinheiro neste processo educativo. Eis aqui uma grande
oportunidade de aliança estratégica, de parceira entre todos
estes atores. Vamos começar uma campanha?
DG: – Você é a favor das ações afirmativas, um exemplo
disso seria a viabilidade da lei de cotas? Você poderia nos
explicar o ponto de vista da organização em que você trabalha?
Marcelo: – Não temos uma posição oficial sobre o tema,
apesar de contarmos com algumas lideranças de peso que
acreditam na necessidade e efetividade das ações afirmativas.
Eu, particularmente, acredito que avanços concretos e mais
velozes só vão acontecer a partir deste tipo de ação.
Precisamos tomar o cuidado de não cair na armadilha, de que a
inclusão ou a prática da diversidade é “um projeto em
construção”. Claro, precisamos perseverar na mudança e tomar o
pulso da realidade que nos cerca, mas, ao mesmo tempo tempero
esta perspectiva com a minha experiência pessoal, quando atuei
como interlocutor de parceiras entre o primeiro, segundo e
terceiro setor. Cansei de ouvir aquela frase e em muitos casos
pude constatar que não passava de uma grande desculpa para
não executar o projeto até o fim.
DG: – Muitos acreditam que as empresas são atualmente as
grandes motivadoras de mudanças sociais positivas. A
transformação necessária para que consigamos a efetivação dos
Direitos Humanos e respeito à diversidade, perpassa por um
movimento individual, empresarial, governamental ou tudo isso
junto?
Marcelo: – O papel, o peso e a importância das empresas
não podem ser desprezados, mas acreditar que elas sejam
responsáveis pela mudança da nossa sociedade é um grande
equívoco. Os que orbitam na esfera empresarial, especialmente
nas grandes corporações, muitas vezes se esquecem de realidade
do nosso País. Há muita vida fora do “nosso” mundo. A grande
alavanca que faz a nação crescer, sustentavelmente, é o grupo
formado pelas pequenas corporações, muitas delas que transitam
em total informalidade, chegando a contar com quase 60% da
massa de trabalhadores ativos. As grandes empresas devem dar
sua contribuição proporcional a sua capacidade de execução e
porte, mas o movimento tem que ser integrado, em todos os
níveis, individual e coletivo. Os institutos empresariais,
inclusive aqueles que cuidam da responsabilidade social, podem
ser meios facilitadores de alianças estratégicas, que
contribuam para a promoção integrada de práticas sociais, como
a diversidade.
DG: – Qual cenário você vislumbra para a valorização da
Diversidade nas empresas brasileiras nos próximos anos?
Marcelo: – Muito positivo. As camadas mais jovens lidam
com o conceito e o praticam de diversas formas, sem a
dificuldade das gerações que as precederam. Quem tem filho
adolescente e acompanha efetivamente seu processo educacional
sabe que eles vivem expostos, concomitantemente, num cenário
real (família, escola, amigos, clube, etc.) e em outro
completamente virtual (comunidades, blogs, sites de
relacionamento, etc.), mas expostos a uma infinidade de
pessoas, temas, situações diversas, o que amplia e facilita
sobremaneira a produção da diversidade. Se as empresas querem,
de verdade, demonstrar a seriedade do seu compromisso pela
responsabilidade social, terão que provar a seus Clientes que
ela vive, na prática, o mesmo ambiente de diversidade presente
em nossa sociedade. Lidar, conviver e produzir a partir daquele
que é diferente de mim deixa de ser uma novidade e passa ser
um “must”, imposto pela comunidade.
DG: – Você também é professor em curso de pós-graduação
da Fundação Getúlio Vargas, acredita que a academia tem
conseguido abordar de forma adequada o tema de diversidade e
que contribuição à academia poderia adicionar nesse movimento
da diversidade?
Marcelo: – A academia poderia estar um passo a frente. É
preciso, urgentemente, produzir conhecimento e experiências a
respeito. Existe a iniciativa louvável da Fundação Getúlio
Vargas, mas os espaços, os debates e o próprio laboratório para
pesquisas e experiências sobre o tema precisam ter atuação
expandida. Diria mais: este tema precisa ser inserido com igual
urgência nos currículos escolares. Atuar com respeito à
diversidade traz um benefício concreto e imediato para a
sociedade: a tolerância, elemento fundamental para o
desenvolvimento de uma cultura de paz. E não estamos tão
carentes disso?
Caso queira mais informações:
marcelo.lomelino@alcoa.com.br |